CULTURAS INDÍGENAS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR:DESAFIOS, POSSIBILIDADES E PRÁTICAS

PEDAGÓGICAS

Resumo

Introdução: A inserção das culturas indígenas na Educação Física escolar constitui um desafio pedagógico contemporâneo, especialmente diante da necessidade de efetivação da Lei nº 11.645/2008 e das orientações da Base Nacional Comum Curricular. A abordagem dessa temática no contexto escolar revela tensões entre avanços normativos e práticas pedagógicas ainda marcadas por limitações históricas, exigindo reflexões críticas no campo educacional. Objetivo: Este artigo tem como objetivo analisar os desafios, as possibilidades e as práticas pedagógicas relacionadas à abordagem das culturas indígenas na Educação Física escolar, considerando contribuições teóricas, legais e pedagógicas presentes na produção acadêmica recente. Método: A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, descritiva, correlacional e hipotético-dedutiva, desenvolvida por meio de uma revisão bibliográfica sistemática. Foram analisadas produções acadêmicas publicadas nos últimos cinco anos, selecionadas em bases científicas nacionais e internacionais, com foco na Educação Física escolar e na interculturalidade. Resultados: Os resultados indicam que, apesar dos avanços legais e curriculares, ainda predominam práticas pontuais e estereotipadas no contexto escolar, sobretudo em razão de fragilidades na formação inicial e continuada dos professores. Por outro lado, experiências fundamentadas em perspectivas culturais e interculturais demonstram potencial para promover aprendizagens significativas e o respeito à diversidade cultural. Conclusões: Conclui-se que a valorização das práticas corporais indígenas na Educação Física contribui para a formação integral dos estudantes, fortalecendo atitudes de respeito, empatia e reconhecimento das diferenças socioculturais, além de favorecer a construção de uma educação escolar mais inclusiva e democrática.

Palavras-chave: culturas indígenas, educação física escolar, diversidade cultural, práticas pedagógicas, interculturalidade.

INDIGENOUS CULTURES IN SCHOOL PHYSICAL EDUCATION: CHALLENGES, POSSIBILITIES, AND PEDAGOGICAL

PRACTICES

Abstract

Introduction: The inclusion of indigenous cultures in school Physical Education constitutes a contemporary pedagogical challenge, especially given the need to implement Law No. 11.645/2008 and the guidelines of the National Common Curricular Base. Addressing this theme in the school context reveals tensions between normative advances and pedagogical practices still marked by historical limitations, demanding critical reflection in the educational field. Objective: This article aims to analyze the challenges, possibilities, and pedagogical practices related to addressing indigenous cultures in school Physical Education, considering theoretical, legal, and pedagogical contributions present in recent academic production. Method: The research is characterized as qualitative, descriptive, correlational, and hypothetical-deductive, developed through a systematic bibliographic review. Academic productions published in the last five years, selected from national and international scientific databases, focusing on school Physical Education and interculturality, were analyzed. Results: The results indicate that, despite legal and curricular advances, sporadic and stereotypical practices still predominate in the school context, mainly due to weaknesses in the initial and continuing training of teachers. On the other hand, experiences based on cultural and intercultural perspectives demonstrate potential to promote meaningful learning and respect for cultural diversity. Conclusions: It is concluded that valuing indigenous body practices in Physical Education contributes to the integral

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formation of students, strengthening attitudes of respect, empathy and recognition of sociocultural differences, in addition to favoring the construction of a more inclusive and democratic school education.

Keywords: indigenous cultures, school physical education, cultural diversity, pedagogical practices, interculturality.

CULTURAS INDÍGENAS EN LA EDUCACIÓN FÍSICA ESCOLAR: DESAFÍOS, POSIBILIDADES Y PRÁCTICAS PEDAGÓGICAS

Resumen

Introducción: La inclusión de las culturas indígenas en la Educación Física escolar constituye un desafío pedagógico contemporáneo, especialmente dada la necesidad de implementar la Ley N° 11.645/2008 y las directrices de la Base Curricular Nacional Común. Abordar este tema en el contexto escolar revela tensiones entre los avances normativos y las prácticas pedagógicas aún marcadas por limitaciones históricas, lo que exige una reflexión crítica en el ámbito educativo. Objetivo: Este artículo tiene como objetivo analizar los desafíos, posibilidades y prácticas pedagógicas relacionadas con el abordaje de las culturas indígenas en la Educación Física escolar, considerando las contribuciones teóricas, legales y pedagógicas presentes en la producción académica reciente. Método: La investigación se caracteriza por ser cualitativa, descriptiva, correlacional e hipotético- deductiva, desarrollada a través de una revisión bibliográfica sistemática. Se analizaron producciones académicas publicadas en los últimos cinco años, seleccionadas de bases de datos científicas nacionales e internacionales, centradas en la Educación Física escolar y la interculturalidad. Resultados: Los resultados indican que, a pesar de los avances legales y curriculares, aún predominan prácticas esporádicas y estereotipadas en el contexto escolar, principalmente debido a debilidades en la formación inicial y continua del profesorado. Por otro lado, las experiencias basadas en perspectivas culturales e interculturales demuestran potencial para promover un aprendizaje significativo y el respeto por la diversidad cultural. Conclusiones: Se concluye que valorar las prácticas corporales indígenas en la Educación Física contribuye a la formación integral del alumnado, fortaleciendo actitudes de respeto, empatía y reconocimiento de las diferencias socioculturales, además de favorecer la construcción de una educación escolar más inclusiva y democrática.

Palabras clave: culturas indígenas, educación física escolar, diversidad cultural, prácticas pedagógicas, interculturalidad.

INTRODUÇÃO

A inserção das culturas indígenas no contexto da educação brasileira configura-se como uma responsabilidade de natureza legal, ética e pedagógica assumida pelo Estado e pelas instituições de ensino, especialmente após a obrigatoriedade do ensino da história e das culturas indígenas em todos os níveis da Educação Básica. Tal responsabilidade está vinculada ao reconhecimento da pluralidade sociocultural que compõe a sociedade brasileira e à necessidade de romper com modelos educacionais historicamente sustentados por perspectivas eurocêntricas, uniformizadoras e excludentes. Nesse sentido, a escola passa a ser convocada a desempenhar um papel ativo na valorização dos povos indígenas enquanto sujeitos históricos contemporâneos, detentores de saberes, práticas culturais e formas próprias de interpretar e se relacionar com o mundo.

Apesar dos avanços observados no campo normativo e nas diretrizes curriculares, a abordagem das culturas indígenas no cotidiano escolar ainda se apresenta de maneira incipiente e desigual. Em muitos contextos, essa temática é tratada de forma superficial ou fragmentada, frequentemente restrita a momentos pontuais, como celebrações comemorativas, o que acaba por reforçar estereótipos e representações simplificadas dos povos originários. Essa realidade evidencia a distância existente entre os dispositivos legais que orientam a educação intercultural e a efetivação de

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práticas pedagógicas comprometidas com o reconhecimento e a valorização da diversidade cultural no ambiente escolar.

No campo da Educação Física escolar, essa fragilidade torna-se ainda mais evidente. Historicamente, esse componente curricular esteve fortemente associado a concepções esportivistas, biologicistas e tecnicistas, marcadas pela ênfase no desempenho físico, na padronização corporal e na valorização de práticas corporais de matriz ocidental. Como resultado, as práticas corporais indígenas, como jogos tradicionais, danças, rituais e modos específicos de movimentação, foram, em grande medida, invisibilizadas ou tratadas de forma folclorizada, dissociadas de seus contextos culturais, sociais e simbólicos.

Entretanto, a Educação Física escolar apresenta um potencial pedagógico significativo para a valorização da diversidade cultural, uma vez que trabalha diretamente com o corpo e o movimento enquanto dimensões constitutivas da experiência humana. Ao compreender o corpo como uma construção histórica e social e o movimento como forma de expressão cultural, esse componente curricular pode contribuir para o desenvolvimento de práticas educativas de caráter intercultural, ampliando o repertório cultural dos estudantes e promovendo reflexões críticas sobre identidade, diferença e pertencimento.

Diante desse cenário, torna-se necessário repensar o papel da Educação Física na abordagem das culturas indígenas, superando práticas pontuais, estereotipadas e meramente ilustrativas. É fundamental que o ensino das práticas corporais indígenas seja desenvolvido de forma contínua, crítica e contextualizada, articulando vivências corporais, fundamentação teórica e diálogo intercultural. Essa perspectiva possibilita não apenas o atendimento às exigências legais, mas também a construção de aprendizagens significativas que contribuam para a formação cidadã dos estudantes.

A problemática que orienta esta pesquisa pode ser formulada da seguinte maneira: de que forma a Educação Física escolar pode contribuir para a valorização das culturas indígenas de modo crítico, contínuo e contextualizado, superando abordagens estereotipadas e episódicas no cotidiano escolar. Tal questionamento expressa a inquietação frente às lacunas existentes entre os discursos normativos e as práticas pedagógicas efetivamente implementadas nas escolas.

A partir dessa problemática, o estudo tem como objetivo geral analisar os desafios, as possibilidades e as práticas pedagógicas relacionadas à inserção das culturas indígenas no âmbito da Educação Física escolar. De forma específica, busca-se compreender os fundamentos teóricos e legais que sustentam o ensino das culturas indígenas nesse componente curricular, identificar os principais desafios enfrentados pelos professores de Educação Física no tratamento dessa temática no contexto escolar e investigar possibilidades pedagógicas que favoreçam o desenvolvimento de práticas interculturais críticas, comprometidas com a valorização da diversidade cultural.

Parte-se da hipótese de que a Educação Física escolar, quando orientada por uma perspectiva cultural e intercultural, contribui para a valorização das práticas corporais indígenas e para a formação cidadã dos estudantes, estimulando atitudes de respeito, empatia e reconhecimento das diferenças socioculturais. Essa hipótese orienta a análise crítica da produção acadêmica recente sobre o tema, com o intuito de identificar caminhos pedagógicos que fortaleçam uma Educação Física escolar mais inclusiva e socialmente referenciada.

Para atender à problemática e aos objetivos propostos, a pesquisa adota uma abordagem metodológica de natureza qualitativa, fundamentada em uma revisão bibliográfica sistemática. A escolha desse percurso metodológico justifica-se pela necessidade de analisar, interpretar e articular produções científicas recentes que discutem a relação entre Educação Física escolar e culturas indígenas, possibilitando uma compreensão aprofundada do fenômeno investigado. O estudo assume ainda um caráter descritivo e correlacional, ancorado em uma perspectiva hipotético-dedutiva, visando identificar tendências, desafios e possibilidades presentes na literatura especializada.

Dessa forma, o presente artigo organiza-se em seções que discutem os fundamentos teóricos relacionados às culturas indígenas, à Educação Física e à interculturalidade, apresentam os procedimentos metodológicos adotados, analisam os resultados à luz da produção acadêmica recente e, por fim, sintetizam as principais contribuições do estudo para o campo educacional. Ao desenvolver essa análise, pretende-se colaborar para o fortalecimento de práticas pedagógicas que reconheçam a

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diversidade cultural como elemento constitutivo da Educação Física escolar e como princípio essencial para a construção de uma educação democrática, plural e socialmente comprometida.

METODOLOGIA

A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, por compreender que os fenômenos educacionais são construídos social e historicamente, exigindo análises que considerem significados, contextos e relações socioculturais. A pesquisa qualitativa caracteriza-se por buscar a compreensão aprofundada da realidade, privilegiando a interpretação dos sentidos atribuídos pelos sujeitos e pelos discursos produzidos nos diferentes campos do conhecimento, em oposição à mensuração e à generalização estatística (Minayo, 2021).

Segundo Minayo (2021), a investigação qualitativa permite analisar processos educativos de maneira contextualizada, reconhecendo a complexidade das práticas pedagógicas e dos documentos que orientam a educação escolar. No campo da Educação Física, essa abordagem mostra- se especialmente pertinente, uma vez que as relações entre currículo, cultura e práticas corporais não podem ser compreendidas de forma fragmentada ou descontextualizada. Assim, a escolha pela abordagem qualitativa possibilita examinar criticamente como as culturas indígenas são abordadas na Educação Física escolar a partir da produção acadêmica recente, respeitando sua dimensão histórica, simbólica e política.

No que se refere aos procedimentos técnicos, trata-se de uma revisão bibliográfica sistemática, realizada com base em produções científicas nacionais e internacionais. A pesquisa bibliográfica caracteriza-se pelo levantamento, seleção e análise de materiais já publicados, como livros, artigos científicos, dissertações e teses, permitindo ao pesquisador dialogar com o estado da arte sobre determinado tema (Gil, 2017). Diferentemente de revisões narrativas, a revisão sistemática adota critérios explícitos e rigorosos de busca, seleção e análise das fontes, garantindo maior consistência e transparência ao processo investigativo.

Quanto aos objetivos, a pesquisa caracteriza-se como descritiva e correlacional. De acordo com Gil (2017), a pesquisa descritiva tem como finalidade descrever as características de determinado fenômeno ou população, buscando compreender como ele se manifesta na realidade investigada. Nesse sentido, o estudo descreve como as culturas indígenas vêm sendo abordadas na produção acadêmica relacionada à Educação Física escolar, identificando enfoques teóricos, metodológicos e pedagógicos predominantes.

Simultaneamente, a pesquisa assume um caráter correlacional, uma vez que busca identificar relações entre dois campos de análise: a Educação Física escolar e as culturas indígenas. As pesquisas correlacionais, segundo Gil (2017), têm como objetivo verificar associações entre variáveis, sem necessariamente estabelecer relações de causa e efeito. Assim, o estudo procura analisar como as discussões sobre culturas indígenas se articulam às concepções de currículo, práticas corporais e formação docente presentes na literatura da área, evidenciando aproximações, lacunas e tensionamentos teóricos.

No que diz respeito ao método de abordagem, a pesquisa fundamenta-se no método hipotético-dedutivo, amplamente utilizado nas Ciências Humanas e Sociais. Esse método parte da identificação de um problema, da formulação de hipóteses explicativas e da busca por evidências empíricas ou teóricas que permitam sua refutação ou corroboração (Lakatos & Marconi, 2022). Diferentemente de métodos puramente indutivos, o hipotético-dedutivo reconhece o papel central da teoria na construção do conhecimento científico, orientando a análise crítica dos dados.

No presente estudo, parte-se da hipótese de que, embora a legislação educacional e os documentos curriculares reconheçam a importância das culturas indígenas na Educação Física escolar, sua efetivação ainda se apresenta de forma limitada e desigual na produção acadêmica. A análise sistemática da literatura permite confrontar essa hipótese com os achados teóricos e empíricos dos estudos selecionados, possibilitando inferências fundamentadas sobre os avanços e desafios na área. A análise dos materiais coletados foi realizada de forma interpretativa e crítica, buscando identificar categorias temáticas recorrentes, convergências teóricas e divergências conceituais.

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Conforme destacam Lakatos e Marconi (2022), o método científico não se restringe à aplicação de técnicas, mas envolve um processo reflexivo que articula teoria, método e análise, garantindo coerência interna ao estudo. Dessa forma, a metodologia adotada contribui para a construção de uma análise consistente, alinhada aos objetivos propostos e aos referenciais teóricos que sustentam a pesquisa.

DELINEAMENTO E TIPO DE REVISÃO

Quanto ao delineamento, a pesquisa configura-se como uma revisão bibliográfica sistemática, voltada à análise crítica da produção científica relacionada às culturas indígenas na Educação Física escolar. A revisão bibliográfica permite o levantamento, a leitura, a seleção e a interpretação de materiais já publicados, possibilitando ao pesquisador dialogar com o estado da arte sobre o tema investigado (Gil, 2017 ).

A opção pela revisão sistemática justifica-se pelo rigor metodológico empregado na definição dos critérios de busca, seleção e análise das fontes, o que contribui para maior transparência e consistência dos resultados. Diferentemente de revisões narrativas, esse tipo de estudo permite identificar tendências, lacunas e recorrências na literatura científica, fundamentais para compreender o tratamento dado às culturas indígenas no contexto da Educação Física escolar.

As discussões contemporâneas sobre educação têm evidenciado a necessidade de repensar metodologias de ensino, incorporando práticas pedagógicas inovadoras e contextualizadas às realidades escolares. Nesse sentido, destaca-se a importância de propostas que valorizem a articulação entre teoria e prática, bem como o protagonismo dos sujeitos no processo educativo. A adoção de metodologias ativas e de abordagens críticas contribui para a construção de aprendizagens significativas e socialmente relevantes. Além disso, a inovação pedagógica é compreendida como um processo contínuo, que exige reflexão, formação docente e abertura para a diversidade de saberes presentes no contexto educacional (Souza-Silva; Oliveira, 2025).

Culturas indígenas, diversidade cultural e educação

O território brasileiro é constituído por uma expressiva multiplicidade de povos indígenas, cujas línguas, modos de vida, práticas culturais e formas de organização social confrontam concepções homogêneas que foram historicamente naturalizadas no país (Carneiro da Cunha, 2012). Estudos indicam que a simplificação dessa diversidade na figura genérica do “índio” gera processos de invisibilização, apaga especificidades étnicas e fragiliza o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos contemporâneos de direitos (Baniwa, 2019). No espaço escolar, essa dinâmica manifesta- se, com frequência, na representação dos povos indígenas como pertencentes a um passado distante, o que desconsidera sua presença ativa, suas lutas e suas contribuições na sociedade atual (Soratto & Nascimento, 2020).

As pesquisas apontam que tais apagamentos não se restringem à ausência ou escassez de conteúdos nos currículos, mas se expressam também por meio de representações coloniais e estereotipadas, frequentemente reforçadas por abordagens pontuais ou limitadas a eventos comemorativos (Skolaude et al., 2020; Ávila & Traleski, 2025). Essa forma de tratamento contribui para a permanência de um currículo orientado por referências eurocêntricas, no qual a diversidade cultural ocupa um lugar secundário e pouco problematizado (Soratto & Nascimento, 2020). Investigações realizadas com estudantes evidenciam a recorrência de concepções etnocêntricas e homogeneizadoras sobre os povos indígenas, o que revela a força das representações construídas tanto no ambiente escolar quanto nos meios de comunicação (Ávila & Traleski, 2025).

Diante desse contexto, a educação intercultural apresenta-se como uma perspectiva teórica e pedagógica capaz de questionar e deslocar olhares colonizadores, ao favorecer o diálogo entre diferentes saberes e ao problematizar as relações de poder que atravessam o currículo escolar (Candau, 2020). A interculturalidade compreende a interação crítica entre culturas distintas, ultrapassando propostas meramente inclusivas e enfrentando as desigualdades simbólicas historicamente produzidas

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(França, 2024; Sacavino, 2020). Estudos defendem que a consolidação dessa abordagem requer a revisão dos currículos, a ampliação das fontes de conhecimento e o fortalecimento da formação docente, de modo que a diversidade indígena seja reconhecida como um saber legítimo, atual e socialmente relevante (Candau & Ivenicki, 2024; Santos, 2023).

Educação Física escolar e a cultura na educação escolar indígena

A Educação Física escolar vem passando por processos de ressignificação teórica que compreendem o corpo e o movimento como construções culturais atravessadas por disputas simbólicas e relações de poder. A perspectiva do currículo cultural da Educação Física entende as práticas corporais como produções simbólicas que expressam valores, identidades e sentidos sociais, exigindo propostas pedagógicas fundamentadas em investigação, problematização e reflexão crítica (Müller & Neira, 2021; Neira, 2020).

No âmbito da educação escolar indígena, a Educação Física pode assumir diferentes funções, podendo tanto contribuir para o fortalecimento das identidades culturais quanto reforçar dinâmicas de subordinação simbólica, a depender dos referenciais teóricos e pedagógicos que orientam a prática docente. Estudos indicam que, mesmo diante de avanços no campo legal, a temática indígena ainda ocupa um lugar marginal na produção acadêmica da área, o que revela fragilidades nos processos formativos e a escassez de experiências sistematizadas que subsidiem o trabalho pedagógico dos professores (Skolaude et al., 2020; Felipe et al., 2024).

Pesquisas recentes apontam que a produção de materiais didáticos e de produtos educacionais construídos em diálogo com sujeitos indígenas amplia as possibilidades de intervenção pedagógica e favorece abordagens interculturais de caráter crítico (Barale, 2024). A tematização de práticas corporais específicas, como as lutas indígenas, evidencia desafios relacionados à formação docente, mas também revela potencialidades para a ampliação dos repertórios culturais dos estudantes e para o enfrentamento de estereótipos, desde que essas práticas sejam acompanhadas de contextualização histórica, social e cultural, bem como de processos reflexivos sistemáticos (Lima et al., 2025; Ricardo et al., 2024). Nesse cenário, a avaliação assume centralidade no processo pedagógico, devendo ultrapassar critérios restritos à execução motora e considerar aspectos como a compreensão dos significados culturais das práticas corporais, o respeito às diferenças e a participação crítica dos estudantes nas atividades propostas (Müller & Neira, 2021). Contudo, a efetivação da Lei nº 11.645/2008 ainda enfrenta desafios, especialmente no que se refere à necessidade de reformulações curriculares e de investimentos contínuos na formação inicial e continuada de professores, condição essencial para a consolidação de práticas pedagógicas comprometidas com a valorização da diversidade cultural (Lisboa et al., 2023).

Práticas corporais indígenas

As práticas corporais indígenas constituem expressões diversas que articulam dimensões do corpo, do território, da coletividade e da ancestralidade, distinguindo-se das racionalidades hegemônicas do esporte moderno ao priorizarem valores como cooperação, espiritualidade e pertencimento comunitário (Canon-Buitrago & Fraga, 2020). Essas manifestações cumprem funções educativas amplas, pois integram aspectos sociais, éticos e simbólicos, contribuindo para a ampliação dos referenciais teóricos que sustentam a Educação Física escolar (Barale, 2024).

Apesar de sua relevância cultural e pedagógica, estudos de revisão indicam que as práticas corporais indígenas ainda ocupam um espaço restrito na produção científica da Educação Física escolar, o que favorece abordagens superficiais e marcadas por processos de folclorização no cotidiano das escolas (Felipe et al., 2024; Skolaude et al., 2020). Jogos, danças e lutas indígenas, quando trabalhados sem a devida contextualização histórica e cultural, tendem a ser esvaziados de seus significados, o que compromete seu potencial educativo e crítico (Furlan, 2024).

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Pesquisas que analisam a tematização de práticas específicas, como o Huka-Huka, evidenciam que intervenções pedagógicas planejadas e sistemáticas podem contribuir para a redução de resistências iniciais e favorecer processos de aprendizagem intercultural, desde que estejam articuladas à reflexão crítica e ao diálogo entre diferentes matrizes culturais (Ricardo et al., 2024; Lima & Moura, 2022). No contexto da educação escolar indígena, essas práticas assumem papel central na preservação dos modos de vida e na afirmação identitária dos povos, o que exige o respeito à autonomia comunitária e processos de negociação curricular sensíveis às especificidades locais (Azevedo et al., 2023).

A literatura converge ao indicar que a inserção das práticas corporais indígenas na Educação Física escolar demanda a adoção de uma perspectiva intercultural crítica, investimentos consistentes na formação docente e a produção de materiais pedagógicos elaborados em diálogo com os povos indígenas. Tais condições são fundamentais para a construção de um currículo plural, ético e socialmente referenciado, comprometido com a valorização da diversidade cultural e com o enfrentamento de estereótipos historicamente reproduzidos (Felipe et al., 2024; Barale, 2024).

As práticas corporais indígenas, quando inseridas na Educação Física escolar a partir de uma perspectiva cultural, possibilitam o reconhecimento de saberes historicamente marginalizados e ampliam a compreensão do corpo como expressão de identidades, valores e modos de vida diversos. Essa abordagem contribui para superar visões reducionistas e folclorizadas, favorecendo práticas pedagógicas comprometidas com o respeito à diversidade cultural e com a formação cidadã dos estudantes. Ao valorizar os conhecimentos indígenas como parte constitutiva da cultura corporal, a Educação Física assume um papel relevante na construção de um currículo mais plural e socialmente referenciado (Barale, 2024).

A abordagem da história e da cultura corporal indígenas nas aulas de Educação Física amplia a compreensão do corpo como expressão cultural e contribui para o reconhecimento de saberes historicamente marginalizados no currículo escolar. Ao problematizar práticas corporais indígenas de forma contextualizada, a Educação Física favorece a construção de aprendizagens significativas, o respeito à diversidade cultural e a superação de estereótipos. Essa perspectiva exige do professor uma atuação crítica e sensível às especificidades culturais, articulando conhecimentos históricos, sociais e pedagógicos no processo de ensino (Furlan, 2025).

A BNCC e as culturas indígenas na Educação Física

ABase Nacional Comum Curricular reconhece as práticas corporais como produções culturais historicamente construídas, ampliando a compreensão da Educação Física para além de perspectivas biologicistas (Brasil, 2018). As culturas indígenas são reconhecidas como matrizes constitutivas da cultura corporal brasileira, em consonância com a Lei nº 11.645/2008 (Brasil, 2008).

Entretanto, estudos indicam que a presença das culturas indígenas na Educação Física escolar ainda é limitada e frequentemente superficial, dependente da iniciativa individual dos professores e marcada por lacunas formativas (Maldonado & Neira, 2021). Análises críticas apontam que a BNCC tende a tratar a diversidade cultural de forma genérica, o que pode resultar em abordagens seletivas e pouco problematizadoras (Raiol & Brandão, 2018).

A efetivação das orientações curriculares demanda planejamento pedagógico crítico, reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos contemporâneos e investimento em formação docente. Pesquisas demonstram que abordagens interculturais favorecem o respeito à diversidade, ampliam repertórios culturais e contribuem para uma Educação Física comprometida com justiça curricular e perspectivas antirracistas e decoloniais (Furlan, 2022; Barale, 2024; Neira & Nunes, 2026; Canon-Buitrago & Fraga, 2020).

A Educação Física escolar possui um papel estratégico na promoção de uma educação antirracista ao problematizar a centralidade de referências eurocêntricas e valorizar saberes historicamente marginalizados. Ao incorporar as culturas negra, afro-brasileira e indígena como conhecimentos legítimos da cultura corporal, esse componente curricular contribui para a desconstrução de estereótipos, o reconhecimento da diversidade cultural e a formação crítica dos

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estudantes, fortalecendo práticas pedagógicas comprometidas com a equidade e a justiça social (Maldonado; Neira, 2021).

“SUJEITOS” E UNIDADE DE ANÁLISE: CORPUS TEÓRICO - DOCUMENTAL

Empesquisas de natureza bibliográfica sistemática, os chamados “sujeitos” não correspondem a participantes humanos, mas ao conjunto de produções científicas que compõem o corpus de análise. Assim, a unidade de análise desta investigação é constituída por artigos científicos, livros, dissertações e teses que abordam as culturas indígenas no âmbito da Educação Física escolar.

Esse corpus teórico-documental foi selecionado por sua relevância acadêmica, aderência ao tema e contribuição para a compreensão dos desafios, possibilidades e práticas pedagógicas interculturais. Conforme Minayo (2021), a definição clara da unidade de análise é fundamental para assegurar coerência metodológica e profundidade interpretativa nas pesquisas qualitativas.

FONTES DE INFORMAÇÃO E MATERIAIS ANALISADOS

As fontes de informação utilizadas na pesquisa compreendem bases científicas nacionais e internacionais reconhecidas na área da Educação e da Educação Física. Foram analisados artigos publicados em periódicos científicos, além de dissertações, teses e obras de referência que discutem currículo, diversidade cultural, interculturalidade e práticas corporais indígenas.

Os materiais analisados foram selecionados prioritariamente entre publicações divulgadas no período de 2020 a 2025, com o objetivo de contemplar produções recentes e alinhadas aos debates contemporâneos sobre a Base Nacional Comum Curricular, educação intercultural e relações étnico - raciais. Esse recorte temporal justifica-se pela ampliação das discussões acadêmicas sobre a temática e pela necessidade de analisar produções atualizadas.

ESTRATÉGIA DE BUSCA E CRITÉRIOS DE SELEÇÃO

A estratégia de busca foi estruturada a partir da definição de descritores relacionados ao tema, tais como: Educação Física escolar, culturas indígenas, práticas corporais, currículo e interculturalidade. Esses termos foram combinados de forma a ampliar o alcance da busca e garantir a identificação de estudos pertinentes ao objetivo da investigação.

Os critérios de inclusão consideraram produções que abordassem explicitamente as culturas indígenas no contexto da Educação Física escolar, publicadas no período delimitado e disponíveis integralmente. Foram excluídos trabalhos que tratavam da temática de forma superficial, fora do contexto escolar ou sem relação direta com a Educação Física. Essa etapa foi fundamental para assegurar a relevância e a qualidade do corpus analisado, conforme orientações metodológicas de Gil (2017 ).

PROCEDIMENTOS DE ORGANIZAÇÃO DO CORPUS

Após a seleção dos materiais, procedeu-se à organização do corpus por meio de leituras exploratórias, seletivas e analíticas. Inicialmente, realizou-se uma leitura flutuante, com o objetivo de identificar os principais enfoques teóricos e metodológicos dos estudos. Em seguida, os textos foram classificados conforme categorias temáticas relacionadas aos desafios docentes, às práticas pedagógicas e às possibilidades interculturais.

Esse processo permitiu sistematizar os dados e estabelecer relações entre os diferentes estudos, contribuindo para uma análise articulada e coerente com os objetivos da pesquisa.

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Técnica de Análise dos Dados: Análise de Conteúdo Temática

A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo temática, técnica amplamente utilizada em pesquisas qualitativas. Essa abordagem consiste na identificação, categorização e interpretação de temas recorrentes nos textos analisados, possibilitando a construção de inferências fundamentadas (Lakatos; Marconi, 2022).

A partir dessa técnica, foram identificadas categorias como formação docente, práticas estereotipadas, projetos interdisciplinares e práticas interculturais críticas, permitindo uma compreensão aprofundada do tratamento das culturas indígenas na Educação Física escolar.

Validade, Confiabilidade e Rigor do Estudo

O rigor metodológico da pesquisa foi assegurado pela definição clara dos critérios de seleção das fontes, pela transparência nos procedimentos de análise e pela utilização de referenciais teóricos consolidados.

A validade do estudo decorre da coerência entre os objetivos, o método adotado e a análise dos dados, enquanto a confiabilidade está relacionada à possibilidade de replicação dos procedimentos metodológicos (Minayo, 2021).

Equações e Fórmulas

Por se tratar de uma pesquisa qualitativa de natureza bibliográfica de revisão sistemática, não foram utilizadas equações ou fórmulas matemáticas, uma vez que o foco do estudo não reside na quantificação de dados, mas na compreensão interpretativa dos fenômenos educacionais analisados. Nas pesquisas qualitativas, especialmente aquelas fundamentadas em revisão bibliográfica, o conhecimento é construído a partir da análise de sentidos, discursos, concepções teóricas e produções acadêmicas, priorizando a profundidade analítica em detrimento da mensuração estatística (Minayo, 2021).

A análise concentrou-se, portanto, na interpretação crítica dos dados textuais e discursivos presentes no corpus teórico-documental selecionado, considerando os contextos históricos, sociais e culturais nos quais as produções acadêmicas foram elaboradas. Conforme destacam Lakatos e Marconi (2022), nas Ciências Humanas e Sociais o rigor científico não está associado ao uso de fórmulas matemáticas, mas à coerência epistemológica, à clareza dos procedimentos metodológicos e à consistência das inferências construídas a partir do material analisado.

Nesse sentido, a opção por uma abordagem interpretativa permitiu identificar categorias temáticas, recorrências discursivas e tensionamentos conceituais relacionados à inserção das culturas indígenas na Educação Física escolar. Tal procedimento é compatível com os pressupostos epistemológicos das Ciências Humanas e Sociais, que compreendem a realidade como socialmente construída e passível de múltiplas interpretações, exigindo do pesquisador uma postura reflexiva e crítica diante dos dados analisados (Minayo, 2021).

Marcador

Este estudo adota como marcador analítico central a interculturalidade crítica, compreendida como perspectiva que ultrapassa o reconhecimento da diversidade cultural e promove o diálogo entre diferentes saberes, problematizando relações de poder e enfrentando práticas excludentes no currículo escolar. Esse marcador orientou toda a organização do corpus e a interpretação dos resultados, reforçando o compromisso da pesquisa com uma Educação Física escolar inclusiva e socialmente referenciada.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise das produções selecionadas revela que a inserção das culturas indígenas na Educação Física escolar ainda é atravessada por obstáculos de ordem estrutural e pedagógica. Entre os principais desafios identificados, destaca-se a insuficiência da formação docente para o trabalho com conhecimentos de matriz indígena de forma crítica, contextualizada e contínua. Estudos indicam que grande parte dos professores não teve contato sistemático com essa temática ao longo da formação inicial, o que dificulta a construção de propostas pedagógicas capazes de superar abordagens superficiais ou marcadas pela folclorização (Moreira & Peres, 2019).

Somam-se às lacunas formativas a escassez de materiais didáticos específicos e contextualizados, apontada pela literatura como um fator que limita o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais consistentes. Diante da ausência de referenciais acessíveis, muitos professores recorrem a fontes genéricas ou estereotipadas, o que contribui para a reprodução de visões simplificadas sobre os povos indígenas. Esse contexto favorece práticas que desconsideram a diversidade interna dessas culturas e suas dinâmicas contemporâneas, tratando-as como manifestações homogêneas e imutáveis (Skolaude et al., 2020). Tais achados dialogam com análises que evidenciam a subalternização dos saberes indígenas no currículo escolar, inclusive no âmbito da Educação Física (Canon-Buitrago & Fraga, 2020).

Outro aspecto recorrente nos estudos analisados diz respeito à permanência de práticas pedagógicas marcadas por estereótipos. Quando a abordagem das culturas indígenas se restringe à realização de jogos ou atividades isoladas, sem articulação com discussões históricas, sociais e políticas, tende-se a reforçar imagens exóticas ou romantizadas desses povos. Moreira e Peres (2019) destacam que, embora ações pontuais possam ampliar o repertório cultural dos estudantes, elas se mostram limitadas quando não estão vinculadas a um projeto pedagógico mais amplo, comprometido com a educação das relações étnico- raciais.

Em contraponto a esses desafios, os resultados também evidenciam experiências pedagógicas com potencial transformador, especialmente aquelas fundamentadas em projetos interdisciplinares e em vivências corporais contextualizadas. Pesquisas relatam que propostas que articulam a Educação Física a componentes como História, Geografia e Artes favorecem uma compreensão mais ampla das culturas indígenas, ao integrar diferentes dimensões do conhecimento e valorizar saberes tradicionais (Moreira & Peres, 2019). Nessas experiências, as práticas corporais indígenas passam a ser compreendidas como expressões culturais carregadas de significados, relacionadas a modos de vida, cosmologias e relações comunitárias.

As contribuições do currículo cultural da Educação Física, conforme sistematizado por Neira (2018, 2019), aparecem de forma recorrente nos estudos analisados. Essa perspectiva propõe a tematização das práticas corporais como artefatos culturais, possibilitando que os estudantes analisem criticamente os contextos de produção, circulação e ressignificação dessas manifestações. A adoção desse enfoque tem favorecido o desenvolvimento de propostas pedagógicas que problematizam estereótipos, discutem relações de poder e promovem o reconhecimento da diversidade cultural no espaço escolar (Neira, 2019).

Outro resultado relevante refere-se ao potencial das práticas pedagógicas interculturais na construção de aprendizagens significativas. A literatura aponta que experiências fundamentadas no diálogo entre culturas contribuem para o desenvolvimento do respeito às diferenças e para a desconstrução de preconceitos historicamente enraizados. Candau (2020) ressalta que a educação intercultural ultrapassa o simples reconhecimento da diversidade, ao pressupor a interação crítica entre diferentes grupos culturais, com vistas à transformação das relações desiguais de poder presentes tanto na sociedade quanto na escola.

Nesse sentido, estudos que investigam a abordagem das práticas corporais indígenas na Educação Física escolar indicam avanços quando há envolvimento da comunidade, diálogo com lideranças indígenas e valorização do protagonismo desses povos na construção das propostas pedagógicas. Essas experiências favorecem uma abordagem menos eurocêntrica e mais alinhada a

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perspectivas decoloniais, ampliando o sentido educativo da Educação Física para além do ensino técnico dos movimentos corporais (Rocon, 2022; Barale, 2024).

Por fim, os resultados analisados permitem afirmar que a efetivação das culturas indígenas na Educação Física escolar depende da implementação de ações estruturantes, como políticas consistentes de formação inicial e continuada de professores, produção de materiais didáticos contextualizados e apoio institucional às práticas pedagógicas interculturais. Aliteratura converge ao indicar que a inserção dessas culturas não deve ocorrer de forma episódica ou restrita a datas comemorativas, mas como parte constitutiva do currículo escolar, contribuindo para uma educação comprometida com a justiça curricular e com o enfrentamento das desigualdades étnico-raciais (Candau, 2020; Neira, 2019).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como propósito examinar a inserção das culturas indígenas na Educação Física escolar, considerando os fundamentos teóricos, legais e pedagógicos que orientam esse componente curricular na Educação Básica. A partir da revisão bibliográfica sistemática realizada, verificou-se que, embora a temática das culturas indígenas esteja contemplada nos documentos normativos e seja objeto de atenção em produções acadêmicas recentes, sua concretização no cotidiano das escolas ainda se apresenta como um desafio. Nesse sentido, os resultados reforçam que a presença dessas culturas na Educação Física não deve assumir caráter eventual ou meramente comemorativo, mas constituir um compromisso pedagógico permanente, articulado a um projeto educativo crítico e socialmente comprometido.

No que diz respeito ao primeiro objetivo específico, voltado à compreensão dos fundamentos teóricos e legais que orientam o ensino das culturas indígenas na Educação Física escolar, os achados indicam a existência de um consistente respaldo normativo e conceitual para essa abordagem. A legislação educacional vigente, a Base Nacional Comum Curricular e as contribuições teóricas do currículo cultural e da educação intercultural oferecem subsídios relevantes para o reconhecimento das práticas corporais indígenas como conhecimentos legítimos da cultura corporal. Dessa forma, esse objetivo foi plenamente alcançado, uma vez que a análise da literatura permitiu identificar e sistematizar os principais referenciais que sustentam a inserção das culturas indígenas nesse componente curricular. Em relação ao segundo objetivo específico, que buscou identificar os principais desafios enfrentados pelos professores de Educação Física no tratamento dessa temática, os resultados evidenciam que as dificuldades estão relacionadas, sobretudo, às fragilidades na formação inicial e continuada, à limitada disponibilidade de materiais didáticos contextualizados e à persistência de práticas pedagógicas marcadas por estereótipos. A produção acadêmica analisada demonstra que tais fatores contribuem para abordagens pouco aprofundadas, frequentemente desvinculadas de uma perspectiva crítica e intercultural. Assim, o estudo conseguiu mapear de forma consistente os obstáculos que ainda dificultam a consolidação das culturas indígenas na Educação Física escolar.

O terceiro objetivo específico, que consistiu em investigar possibilidades pedagógicas favoráveis ao desenvolvimento de práticas interculturais críticas, também foi atingido. Os resultados apontam que experiências fundamentadas em projetos interdisciplinares, vivências corporais contextualizadas e no diálogo com comunidades indígenas apresentam significativo potencial pedagógico. Essas práticas favorecem aprendizagens mais significativas, estimulam o respeito à diversidade cultural e contribuem para a desconstrução de estereótipos historicamente associados aos povos indígenas. Nesse sentido, a Educação Física evidencia-se como um espaço privilegiado para a construção de propostas interculturais comprometidas com a valorização da diferença e com a justiça cur ricular.

Aanálise dos resultados permite afirmar que a hipótese inicialmente formulada foi confirmada. Constatou-se que a Educação Física escolar, quando orientada por uma perspectiva cultural e intercultural, favorece a valorização das práticas corporais indígenas e contribui de maneira significativa para a formação cidadã dos estudantes. Ao compreender o corpo como linguagem e expressão cultural, esse componente curricular amplia suas possibilidades educativas, promovendo atitudes de respeito, empatia, reconhecimento das diferenças socioculturais e fortalecimento da cidadania.

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Como contribuição para o campo de estudo, este trabalho reafirma a relevância da Educação Física como componente curricular estratégico na construção de uma educação escolar plural, democrática e socialmente referenciada. Ao evidenciar desafios e apontar possibilidades, a pesquisa amplia o debate sobre a efetivação das culturas indígenas no currículo escolar e indica caminhos pedagógicos para sua consolidação. Do ponto de vista prático, os resultados podem subsidiar ações de formação docente, planejamento curricular e elaboração de materiais didáticos comprometidos com perspectivas interculturais críticas.

Por fim, reconhecem-se as limitações do estudo, especialmente por se tratar de uma investigação de natureza bibliográfica, que não contemplou a análise empírica de contextos escolares específicos. Nesse sentido, sugere-se que pesquisas futuras avancem para estudos de campo, envolvendo práticas pedagógicas concretas, a escuta de professores e estudantes e o diálogo direto com comunidades indígenas. Tais investigações poderão aprofundar a compreensão sobre os impactos dessas práticas no cotidiano escolar e contribuir para o fortalecimento de uma Educação Física escolar cada vez mais inclusiva, crítica e comprometida com a diversidade cultural.

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Submetido em abril de 20 26 Aprovado em maio de 20 26

Informações do(a)(s) autor(a)(es)

Nome do autor: Rômulo Terminelis da Silva

Grau de escolaridade: Pós-doutorando em Educação, com Ênfase em Educação Física - Logos University. Paris, França.

Afiliação institucional: Logos University International, Unilogos

E-mail: drromuloterminelis@hotmail.com

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8911- 5880

Link Lattes: https://lattes.cnpq.br/4752175092618809

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